agosto 5, 2019

Alpujarra Granadina

Espanha

Murtas é um município espanhol pertencente à província de Granada (parte da comunidade autônoma de Andalucía). Com uma população total de menos de 300 habitantes, está situada na porção sudeste da Alpujarra Granadina, uma região que inclui o Parque Nacional da Sierra Nevada, e por isso mesmo está limitada a outros municípios granadinos como Ugíjar, Cádiar, Albondón, Albuñol y Turón, além de um município pertencente à província vizinha de Almeria, Alcolea. Murtas está a 1.500 metros de altura, isso garante uma impressionante vista desde os picos da Sierra Nevada até a costa do Mar Mediterrâneo. Trata-se, na verdade, de uma aldeia, um povoado pequeno, mas que guarda segredos e histórias tão antigas que remontam o início do Emirado nasrida de Granada em 1238. Os locais mais visitados da região incluem antigas ruínas e 'cuevas' (cavernas) e a todo lado que mirar, você encontrará o arbusto que dá nome à cidade, mirto - ou murta - que é uma espécie comum em regiões altas e secas. Depois da Reconquista em 1492, a população mourisca resistiu à pressão cristã e organizou uma revolta que levou à expulsão dos mouros e ao subsequente despovoamento da região, voltando a ser povoada mais tarde por cristãos provenientes de Castela, Galícia e Astúrias, iniciando a produção de vinho denominado 'Costa', que é a marca da região até os dias de hoje e pode ser apreciado na 'Bodegas Cuatro Vientos'. As formas escalonadas da aldeia dão a sensação de que as casas e chaminés estariam apoiadas uma sobre as outras, mas o que se tem, na verdade, são inúmeros terraços, 'tinaos' (balcões), escadarias e ruelas, que garantem a beleza única e pitoresca do povoado. A 'Iglesia Parroquial de San Miguel' é um importante monumento religioso, não só de Murtas, como de toda a Alpujarra e foi construído no século XVIII no estilo neoclássico. Adentrar a igreja em nossa última viagem à Espanha, foi algo especialmente emocionante para mim, pois ali, entre os ornamentos de madeira e mármore vermelho, meu avô (murteño nativo) havia sido batizado no início do século passado. Meu avô e família viveram naquela região até meados de 1920, quando decidiram partir do Estreito de Gibraltar rumo ao Porto de Santos, no Brasil. Ali mesmo, dentro da igreja, me emocionei quando Jaqueline Quirino começou tocar lindamente uma música em um centenário órgão. As notas ecoavam por toda a nave da igreja, como se tocasse e avivasse as histórias de muitos que por ali passaram. Outra sensação indescritível foi adentrar o pequeno e simples café "El Pinche" logo atrás da igreja, onde saboreamos deliciosas azeitonas, vinhos e o famoso 'puchero andaluz' ou 'guiso de garbanzos', receita levada ao Brasil e que durante anos reuniu ao redor da mesa familiares e amigos dos meus avós (minha avó também é proveniente da região de Andalucía, mais precisamente da província vizinha, Almería). Ali também ficamos sabendo que o dono do estabelecimento é primo do meu avô, uma bela surpresa e um sinal de que a genealogia nem sempre acompanha as histórias como são contadas com o passar dos anos e que, vez por outra, podemos topar com situações inesperadas. Murtas é um roteiro certo quando o que se pretende é um tipo de escapada rural e bucólica a partir da agitada Granada em Espanha, mas também é um lugar perfeito para entender a vida que o povo faz, sua criação, amor e paixão.


Palavras: Leo Nietzsche
Fotos: Jaqueline Quirino

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